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De Stonewall à Parada Gay

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De Stonewall à Parada Gay

 Historia, Memória e Respeito

 

Pensar o mundo de maneira uniforme e utópica, onde a igualdade e o respeito fossem atos cotidianos e comuns; e não houvesse a necessidade de lutas para conquistar o que deveria ser natural; infelizmente, nos dias atuais é apenas um exercício de sonho, do que se deseja, mas está longe de ser real.

Diante de tanto preconceito, que leva à rejeição, solidão, desemprego e violência; violência esta que se manifesta em forma de piadas homofóbicas, brincadeiras que são na verdade bullying , agressões verbais, emocionais e físicas, e que podem em muitos casos levar à morte... por terceiros, ou por suicídio perante tanta opressão... o que nos resta são a indignação, e a esperança que vem da história dos que lutaram, e de tantos que ainda lutam por igualdade e aceitação.

Muitos questionam e criticam os eventos e Movimentos LGBTs; acreditamos que a importância de haver necessidade de tantas lutas, e de ser preciso haver Paradas, Festas, criação de novas leis de proteção, Manifestações e Manifestos, e uma data simbólica; o dia 28 de junho, como sendo o DIA DO ORGUHO GAY; está na história e nas evidências cotidianas de violência; representadas muitas vezes nas páginas policiais, pelas mortes de inocentes que morrem apenas por ser o que são.

Para entendermos esta data, e sua grande importância, é preciso voltar um pouquinho no tempo, num passado não tão distante, onde ser gay era motivo de medo, pressão social, e violência policial, tudo isso ainda acontece; mas um ato emblemático, ocorrido no icônico bar Stonewall Inn, no bairro Greenwich Village, em Nova York, foi o marco para o que conhecemos hoje por “Parada Gay”.

Vamos situar um pouco o fato na história, e no que era a sociedade à época; a homossexualidade é inerente ao ser humano, é uma condição de alguns, e não uma escolha; por toda a história da humanidade foi vista e vivida de formas distintas, sendo aceita, e até desejada em algumas culturas, rejeitada e execrada em outras.

Focando especificamente neste marco da mais recente história de luta LGBT, o cenário era o seguinte: Até 1962 a homossexualidade era crime em todo o território dos Estados Unidos, as punições iam desde prisão, até trabalhos forçados, e pena de morte.

Reunir-se era extremamente perigoso, e assumir-se para a sociedade, era sinônimo de desgraça social e na maioria das vezes, familiar também.

Em 1969, ou seja, apenas 7 anos após a “descriminalização” da homossexualidade ( um absurdo e muito triste precisar usar este termo); alguns encontros e reuniões começaram a surgir  – ainda que tímidos, e em locais reservados ou secretos; mas para a sociedade e para a polícia, aquilo era ainda inaceitável, e a repressão continuava constante.

 Manter um bar gay nesta época era algo transgressor, e extremamente arriscado, mas uma família ligada à máfia viu neste nicho um bom negócio, e conseguia manter o local funcionado por conta das propinas pagas à Polícia, que fazia vistas grossas a tudo, inclusive ao fato de não haver licença para vender bebidas alcoólicas, saídas de emergência, e ser totalmente insalubre, mas parece que ninguém se importava muito com isso, o fato de ser o único bar declaradamente gay, era por si só um imenso atrativo para o público, que não tinha opções.

Rapidamente o Stonewall Inn, se tornou o “point” dos gays, lá eles eram livres, podiam beber, conversar, ser quem eles eram; homens podiam dançar, se vestir de mulher, e os trans eram bem aceitos (lembrando que travestis ainda não eram “legalizados”); mas a concentração de tantas pessoas felizes e pouco discretas, incomodava a vizinhança, e muitas vezes a polícia invadia o local, e agia com truculência; mesmo recebendo propina; pois precisava dar satisfação à sociedade.

 Numa dessas “intervenções” policiais, haviam por volta de 200 pessoas no local,a lotação da casa estava um pouco acima do que o habitual; nessas abordagens era costume revistar a todos para identificar os que fossem travestis, ou estivessem com trajes considerados femininos, (pois esses seriam presos), alguns clientes se negaram a colaborar; houve um desconforto maior, e a decisão da polícia em chamar um camburão para leva-los para a delegacia, foi o estopim para o que estava por vir.

Diante do desrespeito, e de anos suportando agressões e humilhações, os que estavam no bar decidiram não mais aceitar aquilo pacificamente, e enfrentaram os policiais.

Ao redor do bar geralmente ficavam dezenas de pessoas que não conseguiam, ou não queriam entrar, mas se reuniam por ali, pois a região do bar era como um ponto de encontro.

 Diante do tumulto, tanto os clientes do bar quanto os que estavam fora se uniram revoltados, entoando palavras de ordem, e canções de protesto; em meio a isso, uma mulher que fora abordada com agressividade gritou por ajuda, e em pouco tempo centenas de pessoas começaram a reagir e revidar, e a confusão estava formada;

O contingente policial não pôde conter a multidão, que começou a atirar moedas e objetos contra eles e contra as viaturas, a confusão tomou grandes proporções, e o Stonewall Inn, acabou incendiado. 

Segundo relatos, foram 45 minutos de intensa resistência, que resultou numa tomada de consciência coletiva, de que não poderiam mais se sujeitar a estes abusos, nem a viver escondidos, uma vez que pela lei, não estavam mais cometendo crimes.

O que se seguiu nos dias posteriores, por cerca de 1 semana, foram primeiramente protestos ao redor dos escombros do  Stonewall Inn, que já não podendo mais abrigar aos gays, lésbicas, trans e travestis, passou a ser ponto de resistência, e agora conscientes, unidos e estimulados a lutar pelos seus direitos, passaram a fazer manifestações públicas com marchas, música, discursos, beijos e demonstrações de afeto em público.

Rapidamente as manifestações se espalharam por todo o país, e grupos e organizações começaram a se formar, fortalecendo o movimento e a causa.

A que é considerada a 1ª. Parada Gay do mundo, aconteceu em 28 de junho de 1970, exatamente 1 ano após este episódio.

Simultaneamente vários desfiles ocorreram por várias partes dos Estados Unidos, e desde então muitos países ao redor do mundo promovem as suas próprias Paradas.

A história de Stonewall Inn, é impactante, e serviu de base para muitas manifestações que resultaram em evolução na aceitação social, e nas leis mundo afora, mas infelizmente ainda há muito o que evoluir, não são poucos os países onde assumir a homossexualidade pode resultar em pena de morte, e de maneira geral,  preconceito e violência perseguem os homossexuais em todas as partes do planeta.

No Brasil, há um descompasso entre a lei e a realidade cotidiana; com uma das leis mais antigas do mundo em relação a não criminalização da homossexualidade, a qual remonta a década de 1830; na prática isso pouco conta, pois somos um dos países mais preconceituosos, onde a comunidade LGBT não consegue trabalho digno, e sofre violência de todas as formas.

Por aqui a história da Parada Gay é mais recente, 28 de junho de 1997 – em homenagem a Stonewall, como quase todas as Paradas no mundo; é tida como a data da 1ª. edição da Parada Gay do Brasil, ocorrida na Avenida Paulista, com cerca de 2 mil participantes, e mantém até os dias atuais o formato original.

 A semente do evento surgiu um ano antes, também em 28 de junho, em 1996; uma manifestação com poucos presentes, ocorrida na Praça Roosevelt, já demonstrava a organização e o desejo de visibilidade da Comunidade; a presença de participantes foi tímida, mas a semente deu frutos.

 

Atualmente a Parada Gay de São Paulo é considerada o segundo maior evento de rua do país, ficando atrás apenas do Carnaval Carioca. Segundo os organizadores, movimenta mais de R$ 400 milhões no final de semana do evento, e reúne 3 milhões de pessoas no circuito.

A evolução do movimento LGBT (atualmente LGBTQIAP+); vai muito além de uma festa ou manifestação cultural; tem a grandeza de resistir e mostrar que não há do que se envergonhar, que a vergonha está no preconceito, e na violência, e não na condição de gênero ou sexualidade das pessoas.

De Stonewall à Parada Gay dos dias atuais, um longo caminho foi percorrido, há de se respeitar e reverenciar os que lutaram e continuam lutando desde então; nosso papel é colaborar para que a memória e o exemplo dos que fizeram história, ajude a escrever uma nova história.


   No ano de 2020, devido à Pandemia do COVID 19, a Parada LGBT de São Paulo está ocorrendo de forma virtual com Lives e shows, de artistas e personagens que ajudaram a construir esta história.

Texto: Susi Guedes – Jornalista, Editora, CEO da ÍNTIMI EXPO, ÍNTIMI CONGRESS, ÍNTIMI POCKET e  ÍNTIMI MARKET.

Imagens: Reprodução da Internet/ istockphoto.

 

 

Este texto é conteúdo exclusivo da Plataforma ÍNTIMI MARKET; tem propriedade autoral e direitos reservados. Sua reprodução parcial ou total sem autorização; está sujeita às penas da lei.

 

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